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23/03/2006 21:51 Para quem acredita em espíritos De vez em quando o Brasil sofre de um surto de lingüística em seus textos e discursos. A sensação que se tem é de que todo mundo tem um pouquinho de Guimarães Rosa, Graciliano Ramos ou Machado de Assis e se auto-concede uma “licença poética” para fazer neologismos. No bojo desta onda de criacionismo está a mídia que por sua função histórica acaba por reproduzir as falácias dos políticos.
Em 2005 as palavras da vez foram propinoduto, denuncismo e valerioduto. Todos originadas da escola do “mensalão” ou “semanão” como preferiram alguns políticos mais exaltados que dispararam críticas contra o governo petista, e, por conseguinte, contra o presidente Luís Inácio Lula da Silva. No meio de todo o palavrório e das trocas de acusações de compra de votos, corrupção e encampamento do Estado brasileiro ressuscitaram a palavra ética e até hoje ela vem sendo utilizada em larga escala. É certo que bem mais por uma tentativa de transmissão de boa imagem da política nacional do que propriamente pelo conhecimento ou posse desta característica.
Nem a dita direita (PSDB, PFL e outros), nem o centro (PMDB), nem a dita esquerda (PT, P-SOL e outros) conseguem convencer com os discursos nos palanques da câmara e do senado. O caso mais patente da falta de ética aconteceu justamente no local que pelo próprio nome deveria se nortear por esta: o Conselho de Ética do Senado.
Para surpresa (ou não) do povo e felicidade geral dos tucanos o processo que era movido contra o senador Eduardo Azeredo foi arquivado nesta terça-feira. A acusação de que ele teria recebido R$ 9 milhões do empresário Marcos Valério na campanha de reeleição ao Governo de Minas em 1998, foi completamente ignorada pelo presidente do Conselho, João Alberto (PMDB-MA). Segundo ele o processo foi arquivado “porque o estatuto define que só teremos de apurar as coisas durante o mandato, e na época Eduardo Azeredo estava lutando pela reeleição", como se a ética na política não perpassasse também as disputas eleitorais que são bancadas com recursos de empresas que posteriormente, e na maioria das vezes, são beneficiadas com licitações da máquina estatal.
Mesmo com a confirmação do tesoureiro da campanha de Azeredo, Cláudio Mourão, do uso de recursos de caixa-dois na campanha do tucano a denúncia foi ignorada e não será investigada. A falta de ética que salvou deputados de serem cassados parece estar contaminando outros locais de Brasília. Seja direita, esquerda ou qualquer classificação ideológica que se faça dos partidos e políticos contemporâneos uma palavra consegue caracterizá-los: corporativistas.
Nos últimos quatro anos ficou provado que o PT falou bobagem ao se intitular o partido detentor único da ética e ter de se desculpar por cometer as mesmas falcatruas que os comparsas anteriores a ele no poder. O hábil PSDB se utilizou desse discurso para se mostrar como alternativa ética ao atual governo só não caiu na mesma armadilha porque ninguém se dispõe a investigar o ninho tucano. Será que alguém vai inventar alguma palavra classificar o porquê disso? Os espíritos de Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Machado de Assis poderiam ajudar nesta hora.
Guilherme Ibraim | comentários(1)
18/11/2005 16:18 As mudanças de Lula Lula mudou muito. A constatação pode parecer muito pessoal e necessita de muito conhecimento acerca da figura máxima do país, mas não é infundada. Ela pode ser constatada depois da entrevista do presidente na última segunda-feira, 7, no programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo.
O ponto que mais “salta aos olhos” é o poder da retórica do presidente, ultimamente tão achincalhada pelos jornalistas e colunistas políticos, mas que mostra força e imponência no diálogo entre o operário e os homens da mídia. Por vezes Lula conseguiu ter a entrevista sob seu total controle, escolhendo entre a dose correta de firmeza ou de desconhecimento acerca do que lhe foi perguntado. Os jornalistas por sua vez não se fizeram de rogados e perguntaram sobre todos os temas mais relevantes do cenário político atual. Corrupção, traição, caixa 2, impeachment, tudo foi questionado, nem sempre respondido.
A convicção com que Lula respondia algumas questões deixa dúvidas sobre o que realmente acontece nos meandros do poder. Se o presidente se diz tão próximo dos ministros a ponto de cobrar diretamente deles os resultados de seu governo, como poderia não saber nada sobre o chamado “mensalão” e sobre as movimentações financeiras escusas supostamente comandadas pelo deputado José Dirceu (PT)? Lula deu uma aula com os números sobre os programas sociais e as exportações do país; pecou por não saber responder como resolver os problemas crônicos relacionados à corrupção, segundo ele ao chefe máximo do país só cabe a função de “mandar”.
Em linhas gerais a entrevista teve dois momentos, o momento inicial em que o presidente parecia um depoente da CPI e um segundo momento quando o presidente tomou as rédeas da entrevista e inclusive falou sobre seu estimado Corinthians. Ficou claro que Lula mesmo entendendo alguns valores da democracia, ainda não compreende que poderia e deveria conceder mais entrevistas coletivas não para dar “pitacos” sobre o que ele classifica de “denuncismo vazio”, mas para mostrar à sociedade que além de “mandar”, também faz.
Não se percebe, logo à primeira vista, que Lula se esquivou da maioria das perguntas. Entretanto quem assistiu à entrevista e imaginou que com ela conseguiria descobrir a finalidade dos “mensalões” e outras falcatruas, ficou a ver navios. Lula utilizou uma prerrogativa que pode não ser a mais esclarecedora, mas serve como muleta. Quem ainda não foi condenando, não é culpado.
A entrevista não serviu como reveladora de fatos novos sobre as denúncias ou algo parecido, mas serviu para mostrar que o presidente Lula continua dominando a “arte” da retórica. Resta saber se ele não é somente mais um sofista. Guilherme Ibraim | comentários(1)
14/09/2005 17:28 Bertold Brecht ensina como fazer jornalismo... A Exceção e a Regra
"Estranhem o que não for estranho.
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos ante o cotidiano.
Tratem de achar um remédio para o abuso
Mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra."
Guilherme Ibraim | comentários(0)
26/08/2005 17:35 Quem faz a história? Ninguém escolhe seu papel na história, é a própria história que delega os papéis de a um. O presidente Lula tem seu lugar cativo na história, como grande líder fundador do PT, um torneiro mecânico e nordestino que chegou à presidência da república entre outras façanhas, como a greve de São Bernardo do Campo.
O arranhão em sua trajetória acontece justamente no cume da carreira política: a chegada ao palácio do planalto. O choro diante de milhões de brasileiro comoveu uma parcela importante da nação, talvez até do mundo, mas talvez aquele choro representasse o início decadência do projeto de governo mais aguardado da história, e parece ter sido assim. A “Carta ao Povo Brasileiro” tinha a missão de “crescer, incluir, pacificar”, em outro plano servia para acalmar os mercados e as tão aclamadas “elites” que imaginavam que com a chegada de Lula e do PT ao poder, o Brasil se tornaria uma espécie de Grande irmão dos países subdesenvolvidos. Não foi assim a política, e a politicagem engoliram o projeto.
Diante das graves denúncias de mensalão, mensalinho, propina, suborno e caixa 2, a história precisou ser revisitada para justificar atitudes pouco convincentes. Quando Lula diz: “Não farei como Getúlio Jânio ou João Goulart. O meu comportamento será o de JK: paciência, paciência, paciência”, ele reafirma sua intenção de ficar marcado na história como um líder de grande notoriedade, seja por suas qualidades, seja por seus defeitos. Na conjuntura atual a segunda opção parece bater à porta.
Getúlio, Jânio, Goulart e JK foram populistas, sabiam como lidar com as massas, os trabalhadores, ou seja, a base eleitoral de qualquer político. Todos eles têm páginas nos livros de história, Lula certamente também terá, mas suas laudas podem ser preenchidas com falcatruas, conluios, coragem ou perseverança. Tudo depende dele.
Lula certamente não dará um tiro no peito, não renunciará por conta dos militares nem por forças ocultas, muito menos endividará o país ás custas de um desejo desenvolvimentista. Mas Lula deve lembrar-se de que a história delega os papéis às pessoas, e não o inverso. Guilherme Ibraim | comentários(0)
09/08/2005 17:04 Palavras aos asseclas de Brasília...
Expulso Por Bom Motivo - Bertolt Brecht
Eu cresci como filho
De gente abastada. Meus pais
Me colocaram um colarinho, e me educaram
No hábito de ser servido
E me ensinaram a dar ordens. Mas quando
Já crescido, olhei em torno de mim
Não me agradaram as pessoas da minha classe e me juntei
À gente pequena.
Assim
Eles criaram um traidor, ensinaram-lhe
Suas artes, e ele
Denuncia-os ao inimigo.
Sim, eu conto seus segredos. Fico
Entre o povo e explico
Como eles trapaceiam, e digo o que virá, pois
Estou instruído em seus planos.
O latim de seus clérigos corruptos
Traduzo palavra por palavra em linguagem comum,
Então
Ele se revela uma farsa. Tomo
A balança da sua justiça e mostro
Os pesos falsos. E os seus informantes relatam
Que me encontro entre os despossuídos, quando
Tramam a revolta.
Eles me advertiram e me tomaram
O que ganhei com meu trabalho. E quando me corrigi
Eles foram me caçar, mas
Em minha casa
Encontraram apenas escritos que expunham
Suas tramas contra o povo. Então
Enviaram uma ordem de prisão
Acusando-me de ter idéias baixas, isto é
As idéias da gente baixa.
Aonde vou sou marcado
Aos olhos dos possuidores.
Mas os despossuídos
Lêem a ordem de prisão
E me oferecem abrigo. Você, dizem
Foi expulso por bom motivo. Guilherme Ibraim | comentários(0)
24/09/2004 17:35 Primeira Visão Ultimamente venho lendo muito sobre a história do Brasil, especialmente sobre os meandros da política e os conchavos partidários, que, desde (1900 e minha vó) são um mal necessário ao sistema de governo do Brasil. Aliás mesmo lendo alguns livros sobre o assunto não consegui entender como pode ser classificado o sistema nacional cheio de micro partidos, com uma câmara e um senado, um poder judiciário e mais outros poderes que sabe Deus como, conseguem se comunicar diariamente; ou talvez não consigam....
Diante desse quadro político complexo, de inter-relação entre os meios de controle social, o que é uma necessidade do mundo atual; fico perplexo ao ver a rajada de críticas que os colunistas e ditos “entendidos” de política disparam sobre o governo Lula. Não tenho alinhamento político, não sou afiliado a nenhum partido, mas como simples leitor, não me parece que o presidente cometa erros na condução da nação de forma premeditada; e o principal ponto que me sugere isto é a origem humilde do presidente da república.
Antes de me tornar um leitor de jornais sempre imaginei o barbudo que esbrabejava nos comícios na televisão como um ignorante completo e por diversas vezes argumentava com meus colegas: “Como um cara que não sabe ler nem escrever pode governar o país”? E a resposta me surgiu antes mesmo de Lula se tornar presidente; descobri o que foi o governo Fernando Henrique Cardoso, um dito não-liberalista nos cochichos das faculdades, mas que se tornou a Santa-Padroeira do capital estrangeiro e das privatizações, que dizia que equilibraria as contas do país, mas que na verdade destruiu todo tipo de empresa, que, mal administrada obviamente não daria lucros, mas que se orientada com astúcia e seriedade representaria mais dinheiro no caixa do Estado(vide a Companhia Vale do Rio Doce e Usiminas), não era a representação exata de que a cultura cátedra é a solução para um país.
Agora vejo Lula ser criticado por se declarar a favor da campanha de Marta Suplicy à prefeitura de São Paulo. Não imagino alguém que fez toda a carreira política em cima de um palanque aos berros na defesa dos interesses dos metalúrgicos, e que teve de fazer uma campanha chamada pelos críticos de “Lulinha paz e amor”, simplesmente perderia o ímpeto que sempre teve. Também é desleal ver como um governo tem de se sujeitar a certas pressões por parte dos oposicionistas e muitas vezes por parte dos seus correligionário também, para a concessão de cargos nos ministérios e secretarias do governo. Todo começo de ano é a mesma ladainha, e sabe por quê? Porque caso contrário a oposição faz o mesmo que conseguiu no último mês de setembro, paralisou o poder legislativo e encheu as páginas e cabeças da “patuléia” com o inexistente esforço concentrado.
Acho que por estas e outras é que a política consegue assim como o futebol ter tantas opiniões discordantes acerca de um mesmo fato. Mas deixemos o futebol pra um outro artigo porque neste momento em algum site uma notícia de política está sendo veiculada e eu tenho que ler pra poder escrever depois.
Bom pro primeiro artigo acho que as idéias nem sintonizaram direito, mas fica aqui o início de uma tentativa de reflexão sobre a política do Brasil. Até... Guilherme Ibraim | comentários(0)
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